Vida, Louca Vida

on Domingo, 5 de Julho de 2009





Fotografia de Eastnine Inc.: Businessman relaxing on tree Getty Images



Quando passava pela rua, chamava a atenção pela sua pessoa. Recebia alguns olhares condoídos.

Pobre homem! Deve ter problemas sérios ou, quem sabe, enlouqueceu!

E ele caminhava absorto, como se pertencesse a outro mundo, como se o corpo apenas seguisse sua sina. Caminhava de modo mecânico, perdia seus trens e nem se dava conta. Mantinha no olhar distante um estranho brilho que, se não perturbava quem o olhasse, ofuscava pela autenticidade...

Aquele homem despertava todos os dias ao som de seu irritante rádio-relógio, que teimava sempre em trabalhar na hora de seu sono mais profundo, na hora em que sua cama era o melhor lugar para se estar. E junto de si despertava aquela que, numa loucura maior, ao som da música incorporava toda volúpia do mundo e, furiosos, lutavam como gigantes por debaixo dos lençóis. Em vão, tentava ser racional (como sempre fora), resmungava, mas acabava cedendo aos beijos e às carícias daquelas mãos enlouquecidas, a lhe roubarem mais e mais amor. Era a química poderosa do desejo. As bocas, o perfume que se mesclavam aos corpos unidos no amor. E os minutos passavam... E era hora de ir... E ela o prendia com suas pernas e braços e dentes, seu corpo se misturando ao dele, seus cheiros e seus beijos que sugavam toda sua força e capacidade de raciocínio.

Quando então seria o minuto derradeiro, ela o libertava e ele desafiava o relógio para se vestir e ganhar as ruas (nem tinha tempo para o desjejum e nem ao menos sentia fome). Ela voltava a dormir o sono dos justos. Ele chegava sempre atrasado ao trabalho. Cabelos despenteados, sapatos desamarrados, barba por fazer, camisa com botões desencontrados, papéis voando... Não se importava com nada, nem ninguém. Recompunha-se aos poucos. Sabia de si e do que sentia. Vivia o sonho, era feliz!

E as pessoas olhando aquele imenso sorriso besta estampado na cara, presumiam: Pobre homem! Deve ter problemas sérios ou, quem sabe, enlouqueceu!

© Claudinha

.:: Música deste Post: Come Away With Me - Norah Jones ::.

Dos Sonhos Antigos Embalados Na Canção

on Domingo, 28 de Junho de 2009





Foto obtida na busca do Google

(*Imagem: Google)

(Porque até mesmo quem não é fã tem que reconhecer o talento , o brilho e a capacidade de criação)


Ele se foi...
Como tudo um dia irá.

Fora ele
O primeiro que em seu gravador
Entoou aquela canção de amor
E a fez sonhar...
Eram sonhos de menina
De amores e de dores
Que jamais ousara experimentar

Ele foi estrela
Nascida obscura
Que por si só resolveu brilhar
Cantou, dançou
escandalizou e encantou
Hoje brilha
em outros planos.
Um quasar

Agora , de gravadores e estrelas, só existe a antiga fita cassete, e as lembranças daquelas tardes preguiçosas e olhinhos sonhadores em que os amigos se reuniam no alpendre da velha casa para ouvir os hits do momento e tentar imitar os passos daquele grupo de irmãos, os Jackson Five, cujo caçula se destacava pela voz doce e afinada e pela maneira de dançar... Existe a saudade da infância inocente e dos momentos eternizados na canção...

imagem retirada de: michaeljacksonthekingofpop.blogspot.com

.:: Música deste post: Music And Me - Michael Jackson ::.

Olha só pessoal! Estou participando do nº 4 da Revista Pensamento!

"Pensamento, miscelânea de filosofia e arte, prosa e verso, ficção e ensaio, ciência e poesia, é uma obra em evolução, adaptável ao ambiente e suscetível a mutações". A partir da próxima terça-feira, 30 de junho, à venda nas livrarias Cultura, Saraiva e Imperatriz e através do e-mail livrescribas@yahoo.com.br, ou ainda a versão digital no Estante Virtual [estantevirtual.com.br]. Não é chique mesmo?

RepensAções

on Sábado, 20 de Junho de 2009




foto de Hidehiro Kigawa - Hearts in the soup

*Getty Images - Autoria ao passar o mouse


E eu que pensei saber fazer sopas, cuidar de adolescentes e pré- adolescentes, me encontro diante da descoberta de que mães são seres predispostos a darem sermões “quequeísticos” e a fazerem misturas mirabolantes e terríveis na cozinha. Seria apenas um texto fictício-fictício, ou um fictício-direto-cruzado sem luvas, para exteriorizar sentimentos bem guardados? Será que as famosas crianças de "Lalongequistão" odiariam a minha comida, mesmo com toda a fome do mundo? Não sei, mas desconfio que ali se encontram pistas para que eu aposente a sopeira... Pelo menos, sei que a TV Cultura aboliu em meus filhos as lavagens cerebrais comuns de seriados infantis ruins e que a sementinha da imaginação foi bem plantada. Mas entre pinschers verdadeiros e primos fictícios, fico com a pulga torturante, bem aqui atrás da orelha direita...

Com vocês, um texto de minha caçula, copiado de seu caderno de tarefas escolares:


Pinscher do Mal

(autora: Ana Júlia)

Estava indo tudo muito bem hoje de manhã. Eu estava brincando com meu pinscher de estimação numa daquelas brincadeiras em que você finge jogar a bolinha e seu cachorro corre até perceber que você não jogou nada. Normalmente eu faço isto uma, duas ou três vezes, mas aí eu me toquei que eu não tinha jogado nenhuma vez. E meu cachorro já estava espumando de raiva (será que pinschers são vingativos?).

Hoje minha mãe me contou que meu primo Léo vem passar três dias aqui, porque a família dele vai viajar.

_ Filha, o seu primo Léo vem passar uns tempos aqui com a gente!
_ Será que ele poderia dormir com o Pepe? Não quero dividir o quarto com um gosmentinho que chupa o dedo do pé!
_ Filhaaa!!!

Minha mãe fez uma sopa pro jantar com 138 ingredientes e nenhum deles combinou. Queria dar a desculpa de que precisava fazer um trabalho para não comer, mas ela iria começar um sermão “quequeístico” e ia ficar falando que as criancinhas de "Lalongequistão" ficariam agradecidas com a comida. Mas acho que as criancinhas de "Lalongequistão" têm problemas demais para aguentar a comida de minha mãe.

Subi ao meu quarto e fiz um trabalho de 30.000 páginas que a Srta Cremilda (ou Srta Gorda) pediu. Na escola, nos dividimos nas forças do bem e nas forças banhudas do mal (ela pula e o chão treme).

Na quarta, meu primo chegou em casa com a sua mochilinha dos “Macaquengers”. Deixei meu trabalho na penteadeira e fui fazer a escala dos manés para minha amiga Mirella. Ela tem problemas com o seu nariz e isto afetou muito a sua auto-estima. Ouvi dizer que uma mulher que ignorou a plástica teve que se casar com um velho mendigo nojento que tirava melecas. Ela enlouqueceu e passou a vida toda num hospício achando que era uma super-heroína, a mulher-Limpinha, que guardava os cocôs que limpava em sua Limp-caverna (quarto). Mas acho que isto não tem muito a ver. O meu primo é tão tosco que vê “Telerengers” e fica mordendo o dedo do pé e coçando um biscoito. Ele deve estar trocando as coisas de ordem já que os Telerengers, como aquele amarelo, o Lala, faz lavagem cerebral.

Na outra manhã, acordei com o despertador (tão vagabundo que veio escrito Ora Certa e faz TROOOOMMMM!), me arrumei e quando olhei na penteadeira (bam!), alguém (Léo?) derramou guaraná no meu trabalho. Fui ajudar minha mãe com o Léo e ele estava tão sujo que escrevi em sua cara: Me lave! Quando fui por meu trabalho para secar, vi que havia algumas pegadinhas de cachorro!

Ah, aquele Pinscherzinho vingativo teve ajuda do Léo e urinou no meu trabalho!
Ah, ele me paga!
Aquele pinscherzinho do mal me ferrou bonito!

.:: Música deste Post: Saiba - com Adriana Calcanhoto ::.

O Primeiro Dia dos Namorados

on Sábado, 13 de Junho de 2009





Fotografia de Mixa - Schoolgirl Holding Jet - via Getty Images Getty Images


A neblina e o frio tatuavam lembranças daquela madrugada. Adultos se ocupavam da decoração das ruas com serragem, papel picado, retalhos coloridos, para a procissão de Corpus Christi.

O Xerife, artista principal, era desenhista e pintor reconhecido pela pequena comunidade. Este era ,certamente, um dos raros momentos em que baixava a guarda e a menina poderia voar um pouco mais longe.

Ela percebeu a aproximação do vizinho, irmão de sua melhor amiga. Os cabelos castanhos claros e encaracolados, os olhos verdes e o sorriso lindo que não se desfez nem mesmo com as cicatrizes deixadas pelo ataque de um cão. Eram namorados, embora jamais tivessem se beijado na boca. O namoro teria começado no circo (que as crianças da rua criaram em um lote abandonado) e em raros momentos as mãos se tocaram. Era o tempo de sonhar e de ser feliz com apenas um olhar.

Aproveitando-se da situação, o menino desajeitado trouxe-lhe um pequeno embrulho quadrado e uma flor colhida no jardim de sua casa. Ela abriu apressadamente, era uma pequena e mimosa agenda de endereços. Mas a menina não ficou feliz...


Era tudo o que sonhava, mas não ficou feliz! O medo de que o Xerife descobrisse tudo a impedia de demonstrar seu apreço. Ainda se lembra dos olhos baixos dele. Retribuiu o presente, que trazia no bolso de seu casaco e era um estojo de caneta e lapiseira, comprado com dinheiro que sua mãe providencialmente deixou em seu armário (ela sempre a ajudou a driblar o Xerife). Os olhos dele voltaram a sorrir e ele lhe deu um beijo rápido e estalado, o primeiro e único de seu namoro.

Dias depois, ele foi estudar em um colégio interno. A menina respirou aliviada, afinal, não precisaria passar mais medo e poderia sair e passear sem a consciência culpada a denunciar suas grandes aventuras. De início mandavam recados e beijos, depois o mundo girou outras voltas , eles cresceram (ela nem tanto) e cada estrada divergiu da outra para sempre.

E por todos estes anos, ela guardou a agenda. É um elo com o passado, um portal para infância perdida nas curvas da vida...

© Claudinha

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Gostaria de agradecer ao amigo e escritor Francisco Sobreira, do blog Luzes da Cidade, pelo livro “Infância do Coração“. Nestes dias delicio-me com as histórias de uma Fortaleza que não existe mais, mostrada a mim pelas mãos de um garoto que começa a sair do ninho, seus encontros, desencontros e descobertas. Leitura de primeira! Muito obrigada!


Livro de Francisco Sobreira - Foto de Claudinha

.::Música deste Post: Ainda Lembro - Marisa Monte ::.

Brumas

on Sábado, 6 de Junho de 2009






Não temia o frio intenso que adornava a paisagem da janela e enrijecia seus pensamentos. Temia , antes, o olhar gélido, o coração distante e a alma ausente. Jamais pensou ser calmaria, mas desistiu de olhar para os prados em movimento. Onde andariam aqueles raios de sol que, em sorrisos, aqueciam seu viver?

Não temia a fúria celeste, o temporal e as nuvens escuras que forravam os tetos de seus dias. Nem a dor lancinante que aportava em seu ser. Temia, antes, a acomodação das montanhas distantes que fingiam adormecer diante de seu olhar.

Não temia nada, a não ser o véu do esquecimento que poderia se apossar de seus mais caros momentos e aprisioná-los nas brumas do intangível...
Porque assim perderia a essência e profanaria seus templos e pereceria diáfana e irreversível até sempre.

.:: Música deste post: Central Park West - John Coltrane ::.

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