Quando passava pela rua, chamava a atenção pela sua pessoa. Recebia alguns olhares condoídos.
Pobre homem! Deve ter problemas sérios ou, quem sabe, enlouqueceu!
E ele caminhava absorto, como se pertencesse a outro mundo, como se o corpo apenas seguisse sua sina. Caminhava de modo mecânico, perdia seus trens e nem se dava conta. Mantinha no olhar distante um estranho brilho que, se não perturbava quem o olhasse, ofuscava pela autenticidade...
Aquele homem despertava todos os dias ao som de seu irritante rádio-relógio, que teimava sempre em trabalhar na hora de seu sono mais profundo, na hora em que sua cama era o melhor lugar para se estar. E junto de si despertava aquela que, numa loucura maior, ao som da música incorporava toda volúpia do mundo e, furiosos, lutavam como gigantes por debaixo dos lençóis. Em vão, tentava ser racional (como sempre fora), resmungava, mas acabava cedendo aos beijos e às carícias daquelas mãos enlouquecidas, a lhe roubarem mais e mais amor. Era a química poderosa do desejo. As bocas, o perfume que se mesclavam aos corpos unidos no amor. E os minutos passavam... E era hora de ir... E ela o prendia com suas pernas e braços e dentes, seu corpo se misturando ao dele, seus cheiros e seus beijos que sugavam toda sua força e capacidade de raciocínio.
Quando então seria o minuto derradeiro, ela o libertava e ele desafiava o relógio para se vestir e ganhar as ruas (nem tinha tempo para o desjejum e nem ao menos sentia fome). Ela voltava a dormir o sono dos justos. Ele chegava sempre atrasado ao trabalho. Cabelos despenteados, sapatos desamarrados, barba por fazer, camisa com botões desencontrados, papéis voando... Não se importava com nada, nem ninguém. Recompunha-se aos poucos. Sabia de si e do que sentia. Vivia o sonho, era feliz!
E as pessoas olhando aquele imenso sorriso besta estampado na cara, presumiam: Pobre homem! Deve ter problemas sérios ou, quem sabe, enlouqueceu!
© Claudinha
.:: Música deste Post: Come Away With Me - Norah Jones ::.









