domingo, 29 de janeiro de 2012

Transição


Clique aqui para ouvir a música do post!

imagem: Weit



Era uma daquelas tardes quentes que antecedem o verão chuvoso.
Andava pela casa que, preguiçosa, exibia silêncios e sombras longilíneas. Tudo dormia. Até mesmo as cortinas que se recusavam a dançar com o vento. O som, o único, vinha do antigo relógio, pulsando no lugar das batidas de seu coração e bombeando o resto de sangue que circulava em suas veias...  Em todos os cantos, a vida se extinguira. Fizera um acordo com o tempo, que escorria viscoso e lento. Uma sincronia bizarra e necessária de inércia, universos em integração.

Jamais havia se sentido tão só. Não queria, naquela hora, desembrulhar as lembranças dos panos de guardar saudades. Era como se o nada fosse tudo e como se estivesse em suspensão no pêndulo das horas... Foi quando, então, debruçou-se na janela e, num suspiro, inflou sua alma com ar renovado e esperou pela noite, que lhe chegou mansa e fresca, trazendo consigo luzes e perfumes. Ao longe, o som da ave-maria completava o momento de transição. A noite preparava um novo dia.

Lentamente, a vida retornava para dentro de si...

© Claudinha

.:: Música deste post: “Sutilmente” (Samuel Rosa / Nando Reis) – com Skank ::.

27 comentários -:

  1. Às vezes precisamos de um hiato para retomar a vida dentro de nós. É uma espécie de concentração, um tomar balanço, para enfrentarmos novos desafios ou, pelo menos, enfrentar os desafios que temos de outra maneira.
    Minha querida amiga, disseste-o de uma forma brilhante. A tua narrativa é excelente.
    Tem um bom domingo e uma boa semana.
    Beijo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada Nilson! Nossas vidas são cheias de transições... Um beijo e uma ótima semana!

      Excluir
    2. Como não há novo post, desejo-te "apenas" um bom fim de semana.
      Um beijo, querida amiga.

      Excluir
  2. Me ha pasado sentir esas sensaciones. Pero luego volvemos otra vez y con fuerza a luchar en la vida que nos ha tocado vivir.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A vida é "una lucha de gigantes"! Escrevi certo? Um beijo!

      Excluir
  3. Gostei muito da menina na janela e do texto gerado por você, Claudinha. Lembrei do Augusto Calheiros cantando: "Cai a tarde tristonha e serena/Em macio e suave langor... Meu beijo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada JFS! E eu confesso, embora envergonhada, que não sabia quem era Augusto Calheiros. Corri pro Youtube e descobri! É bem nostálgico, como o post mesmo. Eu sempre vi as tardes quentes, escorregadias e preguiçosas como Gabo em suas descrições, apenas não sei descrever como ele, rsrs. Um beijo!

      Excluir
  4. Quem já não viveu um momento assim, de silenciosa e introspectiva transição. Melhor ainda num casarão mineiro, como deve ter sido o seu caso. De parabéns por mais esta prosa poética de alto quilate, Claudinha. Um beijo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Marcelo!
      Embora o texto seja ficção, eu vivi, todos vivemos, muitas tardes quentes nas janelas de um casarão antigo e adorável, de um apartamento novo e detestável (jamais me desliguei de minhas raízes barrocas). Não imaginei a menina, mas todos a imaginaram, que seja, ela está tatuada em mim... Um beijo e obrigada pela generosidade!

      Excluir
  5. Tardes preguiçosamente quentes... Como sei disso, nesta minha infância de Nordeste... Mas, engraçado: acho que hoje em dia é que rezo para que a noite me traga a transição de um novo dia melhor - quando menino, minhas tardes eram sempre ótimas, cheias de tarefas de escola e de desenhos maravilhosos na TV... Meu abraço, amiga!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Meu querido Dil, meu texto é ficção. Nem imaginei a menina desta vez, porque ela sou eu.Talvez a imagem tenha levado os leitores a pensar nela, ou talvez ela seja tão forte em mim que se materializou aqui. O fato é que também tive uma infância de sonhos e alegrias e , como você, hoje é que as coisas não são tão coloridas sempre... Um beijo e obrigada pelo carinho!

      Excluir
  6. assim sem avisar. Meu nome é Fabrício e cheguei até vc através do Blog O àrabe. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir meu blog Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. Estou me aprimorando, e com os comentários sinceros posso me nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs

    Narroterapia:

    Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.

    Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.

    Abraços

    http://narroterapia.blogspot.com/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Vou conhecer seu blog sim Fabrício, obrigada! Não creio que seja heresia divulgar seu trabalho, a blogosfera agradece por apresentar coisas boas para se ler. E leu meu texto? Então o que achou? A opinião também é importante! Um beijo!

      Excluir
  7. Claudinha, lembrei da minha menina que ainda mora dentro de mim.
    Minha vida é cheia de transição.
    Beijos e ótima semana.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Jamais devemos nos esquecer da criança que trazemos dentro de nós, é segredo de bem viver! Um beijo!

      Excluir
  8. Bonita imagem que me fez retroceder no tempo, mas que me fez feliz.
    Brinquei com os meus filhos, agora faço-o com os meus netos. Pretendo ser a criança que sempre fui: exercer de adulto chateia...
    Gostei desta leitura que possui essa qualidade na narrativa que sempre detectei em ti, e que muito me agrada. Parabéns.
    Um grande abraço e a minha amizade

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada Duarte! Precisamos sempre ter a criança dentro de nós! Um beijo!

      Excluir
  9. É assim mesmo. A gente culpa a solidão, as circunstâncias, o clima, o mundo, mas no fundo somos os únicos responsáveis pelo que sentimos. Beijos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. E por isso mesmo, Benno, os responsáveis por mergulhar de cabeça nas transições... Viver é custoso... Um beijo!

      Excluir
  10. Fia, que legal voltarmos a ser crianças! A Infância é tudo e mais além, né não?

    Tá mil seu texto, como sempre...

    O Sibarita

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada Sibarita! Saudades de você, to indo lá matar! Beijos!

      Excluir
  11. Se o deixamos de ser... MAU!!!
    Que sejas muito feliz... SEMPRE!
    Um chi-coração

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada amigo, seja feliz também!
      Mas o que é um chi-coração?
      Um beijo!

      Excluir
  12. As horas do dia, as fases da vida... Uma mistura que a nossa menina das letras faz muito bem... Bjs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada amiga, somos e seremos meninas... Um beijo!

      Excluir
  13. Querida amiga, é uma palavra da nossa língua, a portuguesa, com sentido de afecto, e que no dicionário diz assim:

    chi-coração
    s. m.
    [Portugal, Informal]  Abraço amistoso e muito apertado.

    Um chi-coração, meu

    ResponderExcluir
  14. Ah, Duarte, obrigada por esclarecer. Aqui não usamos esta expressão e eu gostei muito dela. Um chi-coração para você!

    ResponderExcluir

Olá!
Obrigada pela sua visita e também por deixar aqui um pouco de sua essência!

Os comentários serão moderados e logo publicados!

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...